Anarquista das palavras
"...Restávamos três anárquicos. De carne, ossos, olhos fixos no mesmo ideal. Foram-se dois. E de fugir da matemática me escondi entre palavras. Descobri então que números também são palavras. De volta à matemática, três menos dois. Números-palavras que de cruéis me fizeram restar um, no lapso."
terça-feira, 18 de novembro de 2025
terça-feira, 16 de setembro de 2025
Reflexões entre o céu e o mar
Anoitece meu corpo, reintegro-me ao ar
Vejo os mistérios todos, entre o céu e o mar
Mas nem todo mistério se quer desvendar
A tristeza acende e apaga, colorido que mata
E do preto ao branco, não resta mais nada
Escombros são os seres que perambulam
Em plena agonia e certeza
da mente que apaga a beleza, acende a crueza…
Cadê a poesia?
Mas se a dor e a alegria, a paz e a guerra
As bombas e os beijos, o amor e o desprezo
O ódio e a compaixão,
São antagonistas que dadas as mãos
se completam À destruição?
São círculos com arestas, quadrados que não tem lados
Palavras cheias de frestas, nos dentes encalacrados
Ódio do bem. Bem do mal
Trocadilhos dementados
Que definem o que é real?
Mistérios de um adoecimento,
trazidos do Norte Ou seria do Sul?
Ou seria de dentro, ou seria do vento?
Só de observar. Observo. Abafo os sentidos
Numa terra de olhos e ouvidos,
a cura está na ausência,
Nos cantos infinitos dos corpos anoitecidos
No escuro estrelado da inocência.
Mas se a inocência é um dos mistérios que se perdeu
E que apenas nos restam olhos e dentes
Recorro às fábulas e ao espelho espelho meu
Que me diga se o vilão sou eu, então
Arranquem-me os olhos, a mente
Me deixem o coração somente.
segunda-feira, 4 de agosto de 2025
O livro e o continente
Estar com um livro na mão
É sempre minha chance, um caminho
Uma nova versão
De mim mesma
E conhecer meus obtusos,
Reconhecer meus intrusos,
Convidados pelas frestas deixadas pelos medos meus
Do mundo. Assustador mundo que só existe
Porque antes o criei
Assim do jeitinho que ele se apresenta
Me abre, me entra
Meu palco, meu monólogo
Minha chatice cansada
Minhas ilusões, meu tudo e meu nada.
Meu parque de diversões, meu pronome possessivo
Lugar onde habito,
Onde eu e minha personagem se fundem, se perdem
Se inundam de dor e dúvidas
E falta espaço, e sobra ausência.
Mas aí o livro na mão
A respiração, minha derradeira chance
Sempre na iminência, sempre Alice
Em busca desse país, terra da maravilha
E deixar então essa ilha, para alcançar o continente
Esse lugar que acolhe e compreende
E mora dentro de mim.
A vida é agora
Percebo que ainda nem nasci
E lá fora: O sol quente e lindo da manhã
As correntes do balanço,
gritinhos animados, ouço e imagino a diversão
Imagino a grama, o pega ladrão, a leveza
O céu, os lugares todos do mundo
Pessoas em vida plena
A poesia em cena
E eu em trabalho de parto
Nem trabalho
Nem parto
Só mente
Me mente
E eu crédula, nem feto, nem gente
Dedinhos à borda do oceano, gelado?
Quente, mas no ensaio do mergulho
Não sei, entende?
Só queria ser, só queria estar presente
Alguém que vive, olha, sente
Escreve a palavra pela lindeza,
A poesia em correnteza
Perene e livre
Mas se sou ainda represa
Que prende, amarra a saída
Controla e mente
para mim mesma
Preciso do fórceps
Alguém, por favor, o fórceps?
É urgente! Preciso nascer
Ser simplesmente. E estar no palco
Nos bastidores, na plateia
Estar todinha, consciente
Esquecer as ciladas da mente
Só verso, somente.
quarta-feira, 2 de julho de 2025
Fio do novelo
Entre “A caverna” de Platão e “Tocata e fuga” de Bach, sigo o fio do novelo, no encalço da minha essência, da arte, meu lugar no mundo, eu, unidade... Ainda que seja muito transparente para ser poema, muito hermética para ser romance, muito sonhadora para ser cinema. Enfim uma “outsider”, vinda de ilha longínqua, carregada de conceitos e respostas, ou seriam amarras? Como já dizia Nietzsche, convicções são cárceres.
Mas se ao despojar-me delas, o vazio? E assim solta no ar me invada tal possibilidade: Teria eu nascido póstuma, fadada ao gelo do tempo, pudores paralisantes, cheios de rigor e tão conflitantes com o fogo que me faz criar?
... Sou o que faço? Existente a partir da existência? Dona única e responsável por meus atos, num mundo de bilhões de donos únicos de seus atos? Afinal sou Sartre ou sou Platão? Preciso mesmo do caos? Dessa desordem que me oprime o peito, mas que me flui em palavras e inspirações?
Albinoni me entenderia... Wagner também, e não preciso dizer de Jung. Mas se agora é solitário andar por entre a gente porque somos parte de um todo, e tudo são espelhos, e queremos ser diferentes, muda-se então os cenários, contudo, repete-se os enredos, e ainda que se cruzem olhares com novos olhares, descobre-se os olhares de sempre?
Quanto profundo se tem que mergulhar na própria essência, para se alcançar a verdade do ser? Talvez faça parte da cura deixar doer. E mais uma vez morrer, e se necessário for, repetir os mesmos versos, os mesmos passos, as mesmas rimas, se for esse o preço do movimento que faz fluir e florescer.
Talvez tornar-me um cavaleiro errante, e lutar com moinhos ao som da nona de Beethoven, ou de uma minimalista contemporânea adorável, talvez aí eu a encontre, entre vitórias emocionadas e derrotas edificantes, ela, a verdade do meu ser.






