terça-feira, 18 de novembro de 2025




Não quero o amor, sou o amor.
Desculpem-me a petulância. 
Sou água em abundância. 
Que me inunda, cachoeira 
e sinto o amor em cada célula, 
molécula, poeira. 

 Sou assim, um grão de areia, 
 que semeia, no deserto alto — mar. 

Personifico amar. 
Um propósito, uma teimosia, 
um jeito, 
um amor manso, revolto, 
imperfeito 

Só preciso ajustar meu vento.

terça-feira, 16 de setembro de 2025

Reflexões entre o céu e o mar








Anoitece meu corpo, reintegro-me ao ar

Vejo os mistérios todos, entre o céu e o mar

Mas nem todo mistério se quer desvendar


A tristeza acende e apaga, colorido que mata

E do preto ao branco, não resta mais nada

Escombros são os seres que perambulam

Em plena agonia e certeza 

da mente que apaga a beleza, acende a crueza…


Cadê a poesia?

Mas se a dor e a alegria, a paz e a guerra

As bombas e os beijos, o amor e o desprezo

O ódio e a compaixão, 

São antagonistas que dadas as mãos 

se completam À destruição?


São círculos com arestas, quadrados que não tem lados

Palavras cheias de frestas, nos dentes encalacrados

Ódio do bem. Bem do mal

Trocadilhos dementados 

Que definem o que é real?


Mistérios de um adoecimento, 

trazidos do Norte Ou seria do Sul? 

Ou seria de dentro, ou seria do vento?


Só de observar. Observo. Abafo os sentidos

Numa terra de olhos e ouvidos, 

a cura está na ausência, 

Nos cantos infinitos dos corpos anoitecidos

No escuro estrelado da inocência.


Mas se a inocência é um dos mistérios que se perdeu

E que apenas nos restam olhos e dentes 

Recorro às fábulas e ao espelho espelho meu

Que me diga se o vilão sou eu, então 

Arranquem-me os olhos, a mente

Me deixem o coração somente.


segunda-feira, 4 de agosto de 2025

O livro e o continente

 



Estar com um livro na mão 

É sempre minha chance, um caminho

Uma nova versão 

De mim mesma

E conhecer meus obtusos,

Reconhecer meus intrusos, 

Convidados pelas frestas deixadas pelos medos meus

Do mundo. Assustador mundo que só existe

Porque antes o criei

Assim do jeitinho que ele se apresenta

Me abre, me entra

Meu palco, meu monólogo

Minha chatice cansada

Minhas ilusões, meu tudo e meu nada.

Meu parque de diversões, meu pronome possessivo

Lugar onde habito,

Onde eu e minha personagem se fundem, se perdem

Se inundam de dor e dúvidas 

E falta espaço, e sobra ausência.


Mas aí o livro na mão 

A respiração, minha derradeira chance

Sempre na iminência, sempre Alice

Em busca desse país, terra da maravilha

E deixar então essa ilha, para alcançar o continente

Esse lugar que acolhe e compreende 

E mora dentro de mim.


A vida é agora

 



Percebo que ainda nem nasci

E lá fora: O sol quente e lindo da manhã 

As correntes do balanço,

gritinhos animados, ouço e imagino a diversão 

Imagino a grama, o pega ladrão, a leveza

O céu, os lugares todos do mundo

Pessoas em vida plena

A poesia em cena


E eu em trabalho de parto

Nem trabalho

Nem parto

Só mente

Me mente


E eu crédula, nem feto, nem gente

Dedinhos à borda do oceano, gelado?

Quente, mas no ensaio do mergulho

Não sei, entende?


Só queria ser, só queria estar presente

Alguém que vive, olha, sente 

Escreve a palavra pela lindeza, 

A poesia em correnteza

Perene e livre


Mas se sou ainda represa

Que prende, amarra a saída 

Controla e mente

para mim mesma

Preciso do fórceps

Alguém, por favor, o fórceps?


É urgente! Preciso nascer

Ser simplesmente. E estar no palco

Nos bastidores, na plateia

Estar todinha, consciente

Esquecer as ciladas da mente


Só verso, somente.


quarta-feira, 2 de julho de 2025

Fio do novelo

 



Entre “A caverna” de Platão e “Tocata e fuga” de Bach, sigo o fio do novelo, no encalço da minha essência, da arte, meu lugar no mundo, eu, unidade... Ainda que seja muito transparente para ser poema, muito hermética para ser romance, muito sonhadora para ser cinema. Enfim uma “outsider”, vinda de ilha longínqua, carregada de conceitos e respostas, ou seriam amarras? Como já dizia Nietzsche, convicções são cárceres.

Mas se ao despojar-me delas, o vazio? E assim solta no ar me invada tal possibilidade: Teria eu nascido póstuma, fadada ao gelo do tempo, pudores paralisantes, cheios de rigor e tão conflitantes com o fogo que me faz criar?

... Sou o que faço? Existente a partir da existência? Dona única e responsável por meus atos, num mundo de bilhões de donos únicos de seus atos? Afinal sou Sartre ou sou Platão? Preciso mesmo do caos? Dessa desordem que me oprime o peito, mas que me flui em palavras e inspirações?

Albinoni me entenderia... Wagner também, e não preciso dizer de Jung. Mas se agora é solitário andar por entre a gente porque somos parte de um todo, e tudo são espelhos, e queremos ser diferentes, muda-se então os cenários, contudo, repete-se os enredos, e ainda que se cruzem olhares com novos olhares, descobre-se os olhares de sempre?

Quanto profundo se tem que mergulhar na própria essência, para se alcançar a verdade do ser? Talvez faça parte da cura deixar doer. E mais uma vez morrer, e se necessário for, repetir os mesmos versos, os mesmos passos, as mesmas rimas, se for esse o preço do movimento que faz fluir e florescer.

Talvez tornar-me um cavaleiro errante, e lutar com moinhos ao som da nona de Beethoven, ou de uma minimalista contemporânea adorável, talvez aí eu a encontre, entre vitórias emocionadas e derrotas edificantes, ela, a verdade do meu ser.