sábado, 27 de setembro de 2014

Adormecidos


 
Jonh Melhuish

 E quando o dia, cansado de ser sol, despertar noite num quase sorriso da lua, é quando irei em seu encalço.
Ainda que tudo conspire contra e às fadas do conto isto inspire afronta, eu assim abandonada à própria sorte, irei em seu encalço.
Sei que é lá no alto da colina, na torre solitária do castelo que já ruiu, que nunca existiu, é onde você está. Murada que te mantém. Você vilão, você refém, que descansa embalado pela cantiga. Quem dera fosse um ninar... E dormindo pudéssemos acordar... Mas amaldiçoados que fomos!
Calado, joelhos ao chão, pesadas são as cordas que escalpelam a alma, já sem pele, é carne viva que te expõe os segredos mais indizíveis. Não pode amar. É por causa da dor. Não pode ser amado.
E eu, sem muito compreender meus passos, propósitos indemarcados no pensamento, assim como as pegadas que diluem-se no caminho lamacento, mal me sustento... Sentimento que não quer sentir e sente, passo que não quer seguir e segue.
Chamo seu nome e tudo passa a ser por causa do seu nome. Apenas vou em seu encalço sem importar que seja noite e a lua não mais queira me guiar, as fadas se recusem a este conto e só façam me amaldiçoar, ainda assim, ainda exausta, eu persistirei.
Escalarei as paredes escorregadias e petrificadas que te cercam o peito, chegarei ao seu rosto amortecido, ausente, e contemplarei seus lábios com tanta doçura, amor sublime que buscarei além deste mundo e devotarei todo ele num beijo.
E quem sabe seu beijo me desperte deste sono de cem anos me liberte, me salve de mim mesma.
E possa eu finalmente acreditar em contos de fadas, em príncipes, no amor eterno.